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CULTURA

"ASSOCIATIVISMO JUVENIL"

O poder revolucionário da literatura

ONDJALA preparou jovens da província da Huíla para os desafios literários, académicos e profissionais


13 de Junho de 2020
Por: Edson Kassanga




Num dia de difusa certeza deste ano atípico por conta da aparição e disseminação da Covid-19, recebi, via messenger, uma nostálgica imagem. Docemente, ela arrastou-me para um passado do qual hei-de me orgulhar até ao último segundo em que as minhas pálpebras pararem de humedecer os meus olhos, espelhos dos da minha mãe.
Um passado em que o céu não era bastante distante. Naquele tempo, eu e outros miúdos, também fascinados pelos voos que somente as asas da Literatura proporciona, sentíamos e tocávamos as nuvens apenas num mero levantar de braços.
A falta de dinheiro, as nossas vestes veementemente açoitadas pela exposição ao sol, a inexistência de pelo menos um computador para elaboração de panfletos, a dor do dorso exaurido de tanto carregar colunas de som, a chuva que o céu nem sempre conseguia anunciar com antecedência; os alertas de que ficaríamos malucos por lermos muito; os olhares incrédulos e isentos de encantos das nossas mães por nos verem a levar para casa livros em vez de moças; o frio sem freio trivial nas terras altas da Chela e tantos outros óbices eram impotentes de banirem, abrandarem, beliscarem o amor e o esforço que sentíamos e empreendíamos, respectivamente, pela Literatura.
À diminutos anos de eu atingir a faixa etária a qual a maioria das pessoas vislumbra como sendo a melhor da vida, a juventude, fui assolado por uma vaga de inconformismo. A rotina circunscrita às actividades escolares e familiares parecia varões sobrepostos perpendiculamente (cadeia). Já estava aborrecido. Sentia a urgência em desafiar as minhas habilidades, urgia a necessidade de observar para além do que os meus olhos podiam mostrar, era imperioso fazer algo cujos resultados teriam seguramente uma abrangência superior daquilo que eu fazia no seio familiar e na escola. Enfim, eu precisava mesmo de superar os meus limites, eu precisava bastante de alargar os meus horizontes.
Mas, para que tal desiderato fosse materializado, eu necessitava de estar disposto em abraçar circunstâncias jamais vivenciadas. Tinha de me propor a fazer coisas que eu duvidava ser capaz. Tinha de procurar e explorar todas chances que viriam à superfície.
Em 2004, enquanto tracejava o esboço de uma composição sobre o dia de África, escutei por intermédio da rádio, já não me recordo se terá sido a rádio Huíla ou a rádio 2000, uma entrevista a um jovem pertencente a um determinado grupo de cariz literário. Nessa entrevista, o jovem apelava, de modo eloquente e com voz electrizante, para que os demais jovens ingressassem no já referido grupo, explicando quais seriam as vantagens. Já no fim, ele deu informações sobre a localização do grupo e o horário em que o mesmo realizava as respectivas reuniões.
Por conseguinte, na mesma semana os meus pés levaram-me, sôfrega e apressadamente, ao encontro do grupo. Fiquei então a saber que ele era denominado de NDJALA cuja sigla significava Núcleo De Jovens Amigos da Literatura Angolana. Ademais, tomei nota de que o mesmo se encontrava numa fase embrionária, porquanto havia cargos por serem ocupados, alguns desses cimeiros, assim como existia uma pilha de planos à espera de concretização perante uma torrente de múltiplos obstáculos. Dessa arte, desenhava-se, ao meu alcance, a chance por que ansiava. Porém, ainda me mirava mui minúsculo para tão amplo desafio.
Não obstante esse vértice um tanto quanto dissonante, não arredei o pé. Ingressei no NDJALA e ele passou, passo a passo, a ser o sangue que o meu mero coração pulsava. Em menos de três meses, além de eu registar a ascensão da minha paixão pela literatura, as minhas responsabilidades dentro do núcleo tiveram um aumento e tanto. Fui, já não sei ao certo se pelo contexto ou pelo coordenador do Núcleo, nomeado de "novato" a coordenador-adjunto.
Infelizmente, volvidos três anos, tive de abandonar o Núcleo e, assim sendo, também o cargo devido à questões de cunho patriótico. Entretanto, durante este período de permanência no NDJALA, 2004-2007, a minha vida foi acometida por profundas metamorfoses. Aliás, por uma revolução. A mais significativa revolução até aos dias actuais.
Antes da revolução, eu era um passarinho refém no respectivo ninho. Assim o era porque padecia do medo de ter uma queda tremenda. Eu desconhecia que todo homem é imperfeito (por mais que se esforce) e que a irrelevância dos defeitos de cada homem está directamente dependente da intensidade com que o mesmo manifesta as suas virtudes. Eu não tinha noção que ao me esconder, igualmente escondia as minhas valências, aquilo que tenho de melhor. Eu era tão tímido que até na escola me escusava de levantar o braço embora sabendo, com convicção, a resposta certa para a pergunta que se fazia à turma. Eu não sabia que existem habilidades que só as graúdas derrocadas podem proporcionar.
O NDJALA tinha como um dos objectivos fundamentais estimular o gosto pela Literatura. Considerando a falta de interesse que a juventude demostrava à essa importantíssima manifestação cultural, o Núcleo preferia realizar actividades multidisciplinares, buscando um entrosamento harmonioso entre Literatura e as outras artes, como o teatro, a música, etc; enfim, artes que naquela era já gozavam de visível aceitação nos circuitos juvenis. Logo, a preparação das actividades implicava o contacto com pessoas proeminentes na cidade do Lubango.
Era necessário contactar directores de instituições que possuíam recintos perfeitos para a realização das nossas actividades. Era necessário ir atrás dos músicos e actores de modos a fazer com que os fãs desses também ganhassem o gosto pela Literatura. Era preciso criar empatia com os jornalistas tanto para servirem de apresentadores nos nossos eventos, tanto para divulgarem os mesmos, por meio de entrevistas nos órgãos de comunicação massiva. Era imperioso percorrer ceca e meca para honrar os compromissos que íamos firmando com a sociedade. Mais do que isso, era uma obrigação superarmos as nossas limitações, desenvolvendo destrezas que fossem de encontro às expectativas da sociedade exigente.
Assim, com esse conjunto de diligências realizadas diante de dilúvios de dificuldades, somando a realização das actividades consideradas normais em associações de índole literária como debates, recensões críticas e etcétera, o NDJALA transmudou-me num homem melhor em distintas facetas.
Na área académica, passei de estudante anónimo a um estudante notável por conta das reiteradas intervenções que passei a fazer no decurso das aulas, conquistando assim o respeito e a admiração dos meus colegas e também de alguns professores. Na faceta pessoal fui transformado em uma substância maleável, adaptável ao formato de qualquer recipiente em que esteja contido. Ou seja, tornei-me numa pessoa menos tímida, de trato fácil e hábil em lidar com pessoas de diferentes extractos sociais, profissões e cargos.
Tenho refletido em volta desse ditoso passado, com mais tenacidade, desde que recebi a mensagem a qual me referi no primogénito parágrafo. Tratava-se precisamente de uma fotografia onde estão os membros do NDJALA, actores de teatro, um artista plástico e o único rosto que conheço da Brigada Jovem de Literatura Angolana na província da Huila. A foto foi tirada depois de um evento literário que o Núcleo realizou em 2005 ou outro ano muito próximo desse. Que deliciosa e intensa lembrança!
Portanto, os efeitos do NDJALA na minha vida extrapolam os de uma revolução. Efectivamente, ele foi um renascimento, dado o facto de que, as experiências, os ensinamentos, a fraternidade, o patriotismo, a cultura, os dissabores, as vitórias, os livros, os talentos, as dificuldades, as críticas e tudo quanto partilhamos contribuíram para aquilo que actualmente sou, entre outros títulos, um cronista digno do reconhecimento de alguns escritores, jornalistas e não só. Obrigado NDJALA!
Dedico, imbuído de intensa reverência, o presente texto a todos os membros do NDJALA, em especial ao Márcio Undolo, o mentor do Núcleo, e ao Yuri Aspirante, meu amigo, membro do Núcleo e poeta cujos versos de amor já não podem ser declamados pela sua estonteante voz, vibrante voz.



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