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"FAMíLIA"

A INDIFERENÇA NAS RELAÇÕES CONJUGAIS

Chegado este ponto irreversível, é fundamental que cada parceiro seja sincero com o seu cônjuge


6 de Outubro de 2019
Por: Edson Kassanga



Toda e qualquer relação amorosa é assolada por períodos de indiferença perante ternurentos actos, incrivelmente os mesmos que outrora serviram de impulso para o começo da relação. Tratam-se de fases em que a parceira sente que já não sente atração pelo seu parceiro ou vice-versa. O aproximar do próximo encontro entre ambos já não suscita expectativa, o olhar de maravilhar revela-se incapaz de irradiar paz, o abraço prazeroso passa a ser um passo para atrás, o toque escaldante perde o poder de pôr os pêlos em pé... A presença confunde-se com a ausência, dando asas à indiferença.

Quando uma parceira se vê a braços com a indiferença pelo seu parceiro, sua mente tende a ser um palco onde a solidão e o arrependimento revelam-se como os personagens principais.

Os requisitos para a sensação de prazer de cada pessoa não são tão estáveis, também têm sido alvo da volatilidade que pode decorrer por influência da sociedade ou devido a factores endógenos. Ocasionalmente, sem saber como nem desde quando, as vontades de fórum conjugal de uma dada parceira podem alterar. Se de facto elas alterarem e ela não observar garantias de satisfação dos novos desejos no seu parceiro, a insatisfação e a noção de não ser compreendida podem dar origem a solidão.

Na altura em que a parceira nota em si mudanças de aspirações, aspirações que o seu parceiro aparenta não estar em condições para as saciar, ela estabelece uma ligação com o passado para fazer comparações. Especificamente, ela recua no tempo recordando os ex-pretendentes cuja aparências e carácter eram dissonantes aos apetites que ela tinha, mas que hoje, em função da mutação dos seus apetites, deixariam de ser observados do mesmo modo. Ou seja, seriam consonantes, assegurariam a satisfação dos desejos vigentes, caso um dos ex-pretendentes fosse o seu actual parceiro. Esta suspeita ou certeza de perca de oportunidades assim como a grande possibilidade de nunca voltar a tê-las estimula o arrependimento.

Regra geral, as fases de indiferença diante das práticas prazenteiras do parceiro têm sido sol de pouca dura, porém tem havido casos mil que fogem a regra. Não obstante o esforço multilateral ou individual que se empreende para reacender as centelhas da paixão, transformando a relação numa razão de celebração, a indiferença perdura. Por fim, chega-se a conclusão que o problema já não tem solução e que o melhor a fazer é terminar a relação.

Esta é uma das mais complexas circunstâncias num relacionamento a dois.
Um dilema de extrema magnitude para uma parceira ter de dizer ao seu parceiro que não obstante reconhecer tudo quanto ele tem feito para se sentir a pessoa mais amada do universo, ela já não sente nada pelo mesmo. Além disso, que ela assume ter iludido o parceiro quando lhe dizia adorar a derradeira declaração de amor; quando sorrindo demostrava sentir o coração recheado de emoção pela recepção das flores perfumadas com aromas e poemas; quando dava amostras de atingir o zénite da relação sexual (orgasmo); enfim, que mostrava atitudes contrárias aos seus reais sentimentos.

Por conseguinte, não se espera do parceiro uma reação de satisfação por uma revelação da natureza supracitada. A sensação de perder alguém que se tornou tão intimo feito membro do próprio corpo; a angústia por desistir de alguém pela qual já se vem esforçando bastante mas sem ainda alcançar o patamar pretendido; o sentimento de inutilidade por nem sequer conseguir agradar quem se deseja profundamente; a certeza de ter sido enganado durante demorado tempo sem ao menos desconfiar; a perceção de descobrir uma pessoa estranha que mais se ama e se julgava conhecer tão bem e tantos outros sentimentos contribuem para um desespero para além do exagero. Uma dor tão grande que invade qualquer fonte de vaidade. É verdade!

Apesar disso, eu penso haver também nobreza e proactividade sem par em dizer a verdade. Vale sempre a pena em dizer a verdade, porque pior que machucar alguém com a verdade é continuar a impedir de ser feliz sozinho ou com outra pessoa por intermédio de mentiras. Deve ser por este motivo que eu gosto tanto e aprovo o que cantou Edmazia na música "Vou Assumir", álbum "Erro Bom" (2012), na qual ela faz um retrato agridoce de como dizer não quero mais a alguém sem senão.

Acompanhada por uma mescla harmoniosa de sons, na qual se destaca o som do violino, ela solta a voz- uma voz digna de tornar veloz o batimento cardíaco de qualquer ser humano- cantando: "O teu amor eu já não quero/ É triste isso dizer mas é sincero/.../Magoava-te sem grandes motivos/ Mas de mim não desististe/ Mas ficar contigo/ E fingir assim o meu amor/ Prefiro deixar-te do que te magoar".

Portanto, as relações amorosas são propensas a fases de indiferença que não cessam, por maior esforço que os casais e não só façam para reavivar a atracção, a paixão, o amor. Chegado este ponto irreversível, é fundamental que cada parceiro seja sincero com o seu cônjuge, apesar do desconforto; sofrimento e desespero que isso pode causar, fazendo jus à letra da música "Vou Assumir". E seria muito bom que o que é dito nesta música fosse observado em Angola, nos dias que correm, tendo em atenção que iria suavizar, significativamente, o índice alarmante de mortes por crimes passionais.


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